Entrevista com Pedro Barbosa, autor do livro "Harvard Trends 2013"

Docente universitário aponta alguns dos principais desafios atuais que as empresas têm de enfrentar ao nível da gestão e do marketing

O SIM é um espaço online de perspetivas, partilhas, entrevistas e informações inspiradoras

Este é um blogue da LivingBetweenMedia e move-nos a vontade de ver as coisas por um ângulo diferente!

Somos aquilo que lemos? É possível ganhar novas competências na leitura?

Saber escolher as fontes e interpretá-las corretamente é uma competência fundamental numa sociedade onde a informação é aparentemente excedentária

As redes sociais são um desafio para as empresas

Aprender a gerir a presença nas redes sociais é fundamental. A potência viral destas redes funciona para o bem e para o mal

Educar para os media é abrir o olho para o mundo real

No mundo global, um cidadão que saiba interpretar o papel dos media é mais competente em qualquer profissão. A LivingBetweenMedia partilha essa visão

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ter ou não ter cu nas capas dos jornais

Francisco José Viegas conseguiu uma proeza: causar embaraço aos jornalistas e editores dos jornais diários. Basta olhar para as capas de hoje e perceber o conservadorismo e o baralhar de cartas no chamado sensacionalismo. A culpa é do cu. 

Senão vejamos: apesar de a palavra cu existir no dicionário de língua portuguesa, o Correio da Manhã recusou escrever o vocábulo; o Diário de Notícias diz que o ex-ministro “irrita a maioria PSD/CDS-PP”; o Público faz manchete com o tema da “caça à multa junto dos consumidores” e diz que antigo governante usou um “palavrão”; o Jornal de Notícias foi o único que assumiu e publicou a palavra na íntegra. 

Nenhum deles estará certo. Da mesma forma que nenhum estará errado. Na prática, cada um cumpre a sua linha editorial e mostra, ou não, os seus pudores. Apesar de ser uma citação de post do escritor no seu blogue pessoal (ver aqui), a situação causou embaraço e dúvidas nas redacções. 

Escrever a palavra cu na capa de um jornal pode ser, de alguma forma, insultuoso para o leitor? Ou, por outro lado, ao citar na íntegra, expõe em demasia o autor da expressão? Ou será que Francisco José Viegas não queria dizer exatamente aquilo? 

Uma coisa é certa: a expressão virou notícia porque foi emitida por um recém-ex-secretário de Estado do atual Governo de um país em recessão. É caso para dizer que jornalistas, editores e diretores saíram, por breves instantes, da sua área de conforto.









Marta Araújo



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Paulo Futre e a senhora que não roubou o tacho da vizinha

Uma senhora do Alentejo submeteu-se, hoje e em direto, ao polígrafo da TVI. Sim, é verdade. Ela garantia que não tinha roubado os tachos de cobre da vizinha. Nem o fogão dessa mesma vizinha. E muito menos o almofariz. É preferível que ponham o Paulo Futre em tudo o que é canal televisivo, revistas, jornais e rádios. Pelo menos faz-nos rir. É caso para dizer: volta Paulo, estás perdoado sócio! 

Foi com o olhar atento da apresentadora Fátima Lopes e sua audiência do programa "A Tarde é Sua", nos momentos em que não era proferido um exaustivo número telefónico mágico para o qual se devia ligar para ganhar 10 mil euros, que um “professor” com pronúncia espanhola, um grande “especialista” destas andanças e com uma relação tu lá tu cá com o polígrafo, confirmou e ditou, que nem um juiz, a sua sentença: a senhora não roubou os tachos de cobre da vizinha. Nem o fogão da vizinha. E muito menos o almofariz da vizinha. 

Compreendo a luta pela audiência. Entendo a necessidade de se obterem resultados que se traduzam em share. Sei que o mercado publicitário está a viver sérios desafios e que a televisão, paulatinamente, tem perdido força porque os telespetadores vão-se dispersando nas plataformas. 

A realidade é que, ao final da tarde, há bastantes pessoas em casa a ver televisão e que, a todo o custo, para além do aliciamento com dinheiro fácil, é imperioso “congelá-las” em frente a esta “máquina da verdade”, como lhe chamam, levianamente, os responsáveis do programa. A máquina, a título de exemplo, já motivou a ida de pessoas à TVI para provar que não traíram a namorada; não fizeram bruxarias; nem sequer roubaram a patroa. 

Mas esta história do polígrafo e da senhora que, supostamente, não roubou os tachos de cobre da vizinha, está longe de ser a tábua de salvação na luta pelas audiências. É uma questão de tempo. E de moda. Porque depois vem a verdade e tudo se descobre. 

Há uns meses, uma senhora britânica aparecia no mesmo canal a contactar com os mortos. Anne Germain comunicava com os entes queridos, que já tinham partido, não de uma senhora qualquer do Alentejo ou do interior do país, mas sim de figuras mediáticas portuguesas. A audiência da TVI aumentou. Porém, com o tempo o programa deixou de impressionar. 


A vidente saiu do ecrã português. Foi pregar a outra freguesia, desta feita para o país vizinho, fazer o mesmo num programa televisivo espanhol no canal Telecinco. Um jornalista do El Mundo foi investigar a senhora. O seu passado e presente. Descobriu que ali, tal como aqui, era tudo uma farsa: a produção entregava um dossier exaustivo, em inglês, sobre o passado dos convidados, que incluía informações sobre os seus antepassados falecidos e pagava, à vidente, uma pipa de massa. 

Em Portugal houve pouco eco dessa investigação jornalística, que pode ler aqui e aqui, cuja gravidade vai para além das responsabilidades de Anne Germain e abraça, ou deve abraçar, a produção do programa e da estação televisiva em si. 

A pseudo vidente foi embora, agora veio o espanhol com o polígrafo, depois há-de vir outra coisa qualquer. Mas pode ser que, até lá, quem está em casa veja uns desenhos animados divertidos, uma série televisiva que faça descontrair, um programa que enriqueça os seus conhecimentos ou então aproveite para dar uma voltinha a pé. Mal por mal, que venha o Futre.

Marta Araújo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As televisões ainda valem votos?

A entrevista estava a decorrer há uns bons 20 minutos quando, por algum motivo que a memória não me permite lembrar, desvio o olhar para o chão profundo. O entrevistado – um dinossauro autárquico - estava sentado na sua poltrona, com os braços em cima da grande secretária, e os pés estavam fora dos sapatos. Mais do que isso, as peúgas pretas tinham uma pequena marca clara junto dos dedos, uma pista a anunciar que, dentro em breve, um espaço em branco surgiria. Só um homem muito seguro de si está frente a frente a um jornalista sem os sapatos calçados. 

Olho discretamente para o repórter fotográfico, que rapidamente se apercebeu da bizarra situação. Esboçámos um discreto sorriso e continuámos o nosso trabalho. Não faria sentido fotografar aquilo. Mesmo que de um dinossauro político se tratasse. 

Pouco tempo antes, numa entrevista a outro autarca, por sinal geograficamente próximo do das peúgas quase rotas, mas não tão dinossauro, deparei-me com uma situação também caricata. O assessor do presidente da Câmara, que fez questão que eu me sentasse na cadeira X, esteve permanentemente atrás de mim enquanto o seu líder respondia. O interessante, é que tinha nas mãos uma série de folhas brancas e um marcador azul. Muito útil: sempre que era colocada alguma questão, o assessor escrevia palavras chave para que o edil falhasse o menos possível nas respostas. 

Não terão passado mais de 10 anos quando isto aconteceu. Mas hoje, arrisco em dizer que é praticamente impossível o cenário repetir-se. O marketing político, as empresas de assessoria mediática e os profissionais de media training entraram em força na arena política nacional. 

Nos dias que correm, estes autarcas que, claro está, ainda estão no poder, provavelmente iriam preferir responder por email. Caso se insistisse na entrevista presencial, a equipa de assessores iria pedir o envio prévio das perguntas. Para evitar erros de comunicação. Dizem eles. Agora, depois de vários treinos, estão mais aptos a falar com os jornalistas. 

Reza a história que um presidente associativo empresarial, ainda em exercício de funções, quando ganhou as eleições, e um batalhão de repórteres de imagem se dirigia a si para registar o momento, atirou as mãos à face e quis “esconder-se”. A sua ligação com os jornalistas ainda não estaria suficientemente “treinada”. 

Mas ao nível politicamente superior, os episódios bizarros também acontecem. Um ministro, que já não está em exercício de funções, antes de uma conferência de imprensa, onde já sabia que teria de enfrentar os jornalistas, atirou-se para trás de um sofá em jeito de fuga a um primeiro contacto com os repórteres. 

Coisas do passado. 

E se já há muito se instalou a ideia de que os media, principalmente as televisões, fazem ganhar ou perder eleições, e que as aparições televisivas, seja no formato informativo ou opinativo, são um verdadeiro trampolim para o estrelato, o media training começou a estar a atento a esta realidade. Principalmente na sequência do boom de aberturas de canais informativos 24 horas por dia. 

Seja nos estúdios televisivos ou em situações de exterior, nas quais as televisões estão presentes, está claro que vamos ver um discurso muito bem ensaiado, o olhar com a intensidade certa, os gestos devidos e o nó da gravata na posição precisa. 

Com as televisões, e por causa delas, há telepontos invisíveis que ajudam a disfarçar a leitura, há crianças que recebem computadores portáteis numa cerimónia do Governo mas que depois de as televisões irem embora, os computadores são-lhes retirados. E grande parte destes cenários não chegam a ser percebidos por quem está confortavelmente em casa. 

Por causa dos especialistas em marketing político e media training, o agora reeleito presidente dos EUA, foi criticado por não ter tido um discurso à altura em alguns debates televisivos. Muitos pressentiam a sua derrota. Mas Obama, apesar do media training de que é alvo, manteve-se, até ver, fiel a si mesmo. E mostrou-o no contacto pessoal que manteve com a população. 

A melhor forma de decidir em que devemos votar, não é pelas imagens que vemos na televisão. Nada me move contra o marketing político, muito menos contra o media training e ainda menos contra a televisão. Sou jornalista. Mas move-me a Educação para os Media. Ou seja, todos devemos ter consciência que aquilo que as notícias e os media nos mostram, não é a realidade, mas sim fragmentos da mesma. Na altura de votar ou formar opinião sobre determinada pessoa, o melhor a fazer, é não avaliar quando os holofotes das câmaras e os flashes dos fotógrafos estiverem presentes. 

Haverá um dia em que políticos vão subir ao palanque sem folhas e telepontos escondidos. Haverá um dia em que políticos não terão receio de perder um debate televisivo. Haverá um dia em que os políticos não vão cumprimentar e ouvir as pessoas apenas na altura das eleições. E o media training continuará a existir. Mas, nessa altura, a Educação para os Media, já estará em marcha.

Marta Araújo